Proposta analisada: governo da Austrália, 8 de setembro de 2026
O governo australiano apresentou para consulta o projeto “My Feed, My Way”. A proposta obrigaria plataformas a oferecer uma alternativa clara entre o feed personalizado por algoritmos e um feed formado por amigos e criadores que o usuário escolheu seguir. Ainda não é uma regra vigente, mas o debate já importa para qualquer operação que dependa de alcance digital.
Recomendação e relacionamento não são a mesma coisa
O feed recomendado é excelente para descoberta. Ele apresenta um conteúdo a pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar daquele criador, programa ou marca. O problema começa quando toda a estratégia depende dessa porta. Uma alteração de prioridade, formato ou regra pode reduzir a distribuição sem que a qualidade do trabalho tenha mudado.
Já o feed de contas seguidas parte de outra relação: houve uma escolha anterior. Ele não elimina algoritmos nem garante atenção, mas aproxima a distribuição da intenção explícita do público.
Alcance encontra pessoas. Recorrência cria familiaridade. Relacionamento permite continuidade.
O que pode mudar na prática
Seguidores ativos ganham importância
A quantidade isolada vale menos do que a capacidade de fazer as pessoas voltarem.
Programação recorrente fica mais valiosa
Quadros, séries e horários reconhecíveis ajudam o público a procurar o conteúdo.
Canais próprios reduzem dependência
Newsletter, comunidade, mensageria e cadastro preservam a continuidade entre plataformas.
Métricas precisam mostrar vínculo
Retorno, respostas, contatos e participação explicam mais do que impressões isoladas.
Como se preparar sem abandonar as plataformas
Desligar o algoritmo não significa sair das redes. A melhor estratégia combina descoberta e continuidade. Use o alcance recomendado para chegar a novas pessoas, mas ofereça razões concretas para que elas sigam, retornem, se identifiquem e escolham outro canal de contato quando fizer sentido.
Para rádios e TVs, isso pode significar transformar ouvintes e espectadores em participantes de um quadro. Para criadores, registrar interesses recorrentes e organizar dúvidas. Para marcas e agências, construir uma base de relacionamento que não desapareça ao final da campanha.
Uma base própria não é apenas uma lista
Acumular contatos sem contexto repete o problema dos seguidores vazios. Uma base útil registra de onde a pessoa veio, quais temas interessam, que interações já aconteceram e qual continuidade foi autorizada. É aí que comunidade e CRM se encontram.
A proposta australiana pode mudar durante a consulta e talvez demore a inspirar outras jurisdições. Mesmo assim, ela expõe uma verdade atual: quem conhece apenas o alcance alugado pela plataforma conhece só uma parte da própria audiência.